quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Revista Faça Fácil




A cake designer e culinarista Beth Teodoro mostra porque força de vontade e iniciativa são bons caminhos para o reconhecimento profissional
Texto Nathália Braga (colaboração de Isabella Araújo)
Fotos Rodrigo Estrella


Arroz, feijão, bife, ovo frito e batata. Você pode até não acreditar, mas esse é o prato preferido de uma das cake designers e culinaristas que mais se destacam atualmente. Elizabeth Teodoro, ou simplesmente Beth Teodoro, já teve vida de madame, mas perdeu tudo e precisou encontrar forças para dar a volta por cima com a culinária e a confeitaria artesanal. Enfrentou bastante preconceito, é verdade, sobretudo de quem a chamava de “boleira”, em tom pejorativo – se é que é possível ser negativo ao descrever profissionais capazes de transformar receitas em pedaços do céu.



Com uma precisão invejável, Beth diz que sua antiga profissão de protesista a ajuda muito na hora de modelar pasta americana para decorar bolos, doces e cupcakes. Modéstia de quem nasceu com talento. Aos 10 anos, ela já gostava de cozinhar e sempre escapava até a casa da vizinha para preparar bolos, já que a mãe, cautelosa, não a deixava chegar perto do fogão. Essa era a maior aventura das tardes da infância de Beth, que também adorava assistir a programas de televisão sobre culinária. Prendada e empreendedora, vendia os bolinhos que fazia entre os moradores do bairro. “Usava o dinheiro para comprar minhas coisinhas e fazer as unhas”, lembra.

A fase de moça prendada ainda duraria mais alguns anos, por conta da perda do pai e do natural dever de ajudar a mãe. Casou-se bem cedo  e, com a vida conjugal, sua condição de dona de casa estava para mudar. “Meu primeiro marido desfrutava de mais condições. Então, eu passei a ter cozinheira, diversas regalias e virei uma verdadeira madame!”, conta. Mas as crises no casamento resultaram em divórcio, ainda na adolescência dos filhos. Com a separação, a vida de madame foi deixada para trás.



Contudo, por trás da pose de mulher de marido rico ainda havia uma pessoa batalhadora e independente. Beth decidiu fazer um curso de prótese dentária e também se formou em Direito. Mas foi o segundo casamento que a aproximou ainda mais do seu ganha-pão de hoje. Ela e o marido tinham uma loja de utilitários e utensílios de cozinha na popular Rua 25 de Março, em São Paulo (SP). Entratanto, uma forte crise fez com que o comércio fechasse as portas e, pela segunda vez, veio o baque financeiro. Com ele,  a depressão. “Foi um momento muito difícil. Perdi a loja, os apartamentos e os carros que tinha. Precisei vender tudo e perdi muito dinheiro. Só me restou a casa onde moro hoje, um verdadeiro milagre. Estava muito mal!”

Sacudindo a poeira
O convite de uma amiga para uma viagem acabou se transformando na volta por cima de Beth, que nunca vai se esquecer de como tudo começou: “Não tinha dinheiro para o passeio, mas para não ir com as mãos abanando, fiz uns copinhos decorados com flores de balas de  goma modeladas para agradar os filhos dela. Minha amiga gostou tanto que me pediu uma decoração com motivo de folclore para uma festinha na escola das crianças”.



A pesquisa pelo melhor tipo de material a ser usado veio de imediato, mas a descoberta pela pasta americana demorou um pouco mais. “Pensei em modelar com biscuit, mas como eram crianças, fiquei preocupada que comessem. Depois de muito pesquisar, descobri que existia a pasta americana e modelei um boto cor-de-rosa. Era para fazer apenas para 8 crianças, mas gostaram tanto que encomendaram para a escola toda. Desde então, não parei mais!”, se orgulha.

O início de uma nova carreira a motivou a fazer cursos gratuitos na área. “Mas sou praticamente autodidata. Assistia às aulas e vinha para casa fazer sozinha e recriar em cima”. Recentemente, um sonho realizado: fazer um renomado curso internacional da Debbie Brown. Aliás, o dinheiro investido foi resultado de uma premiação por participar do reality show Troca de Família, da rede Record.



Com o tempo, passou a juntar o dinheiro das encomendas para comprar mais materiais e fazer cursos mais renomados. Depois de estudar na famosa escola Trem da Alegria, fez sua primeira apostila de bolos decorados. Com talento, dedicação e conhecimento na área, o caminho para o sucesso não poderia ser diferente. Hoje, aos 47 anos, ela procura retribuir quem um dia a ajudou. “Dou aulas em empresas e ofereço os mesmos cursos de forma gratuita, assim como os que eu fazia quando estava começando”.

Reconhecimento com a culinária
Depois de ter enfrentado os altos e baixos da vida, o preconceito e as dificuldades financeiras, ela demonstra orgulho de ter vencido, de “ter se descoberto na dificuldade”, como ela mesma diz. O segredo? “Trabalhar sempre por amor. Tanto que eu nunca cozinho brava. Não faço nada sem prazer”.

Beth ainda se diz satisfeita atualmente porque a culinária tem adquirido respeito. “Mas não pode existir muito estrelismo. Ser o melhor sempre, mas não o mais aparecido [risos]. O mais bonito da arte fica com você mesma. No quanto ela te preenche. Comida é satisfação, amor, alegria e êxtase”, resume. No caso dela, também é uma tentação – e não só por conta dos bolos decorados. “A receita que todo mundo me pede é chiclete de camarão. Leva cebola, alho, camarão, requeijão e bastante queijo. Na hora de servir, o queijo parece um verdadeiro chiclete. Faz bastante sucesso”.

Alguém ainda duvida?